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Aqui você pode postar (anonimamente ou não) cartas ou emails ou desenhos ou o que você quiser que nunca foram enviados.
Se você tiver algo assim, escondido numa caixa preta do amor, por favor envie um email para blacklovebox@gmail.com





Todas as cartas de amor
são ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.
Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.
As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.
Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas.·
Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas.
A verdade é que hoje
As minhas memórias
Dessas cartas de amor
É que são Ridículas.
(Todas as palavras esdrúxulas,
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente
Ridículas.)

Álvaro de Campos

Monday, 10 May 2010

07. Érica Suzumura

E você foi embora, de novo. Eu te mandei embora de novo. Mas, como nos nossos melhores dias, acompanhei com os olhos o seu carro até virar na pracinha. Como nos nossos melhores dias eu senti alivio, saudade, raiva de você. Queria que você fosse embora pra sempre. Queria que você voltasse.

Eu só quero continuar sendo um segredo, escondida aqui na minha caverna, protegida, salva, segura. Rindo alto, bebendo, me enchendo de amigos, roupas e maquiagem para disfarçar tantas coisas feias.

Te expulsei de novo, porque só você me conhece e sabe a droga que eu sou. Eu não sei encarar. Eu não sei pedir. Choro do nada. Eu não relaxo. Eu não durmo. Não faço minhas refeições à mesa. Eu fujo. Eu não confio. Me perco. Eu não me entrego. Minto. Eu jogo gente no lixo. Eu finjo que o mundo que te cerca me interessa muito, quando, na verdade, eu acho tudo uma grande merda.

E eu não quero mais que alguém que conheça tantos dos meus aleijões me abrace no meio da noite.

Há coisas que não se pede, nem se explica. Você acusa o meu silêncio, reivindica minha rendição. Mas sabe que eu grito muito mais aqui dentro desse meu oco, do que você no seu discurso redundante, virtuoso e dramático.

Não, você não é meu. E não, você não pode ficar.

Te mandei embora porque eu não sou covarde, mesmo que você chame coragem de paciência. Você fala em vazio, solidão, entrega. Sinto muito, mas cansou.

Eu amo desse jeito torto, feio, ausente. Eu sou um campo minado. Construi minhas trincheiras. Minhas gavetas estão trancadas demais, porque toda vez que eu as abro, vem alguém e bagunça tudo, quebram sentimentos, saqueiam partes de mim. E dói. E leva um tempão pra sarar.

Amo e odeio amar.

Eu verbalizo na sua cama, você sempre soube. A maior declaração de amor que eu posso te dar é um orgasmo e um beijo, você sabe! A felicidade que eu tenho pra te dar não está na calma; tá na cama. E te dou. Este é o momento em que o que eu sinto por você finalmente consegue ebulir, transbordar e vazar. E não foi isso que fez você se apaixonar? Eu falo com a pele, pernas, suor, peitos, dentes, saliva, odores, ossos, fluídos, músculos, cabelos, respiração; você sabe. Sempre soube.

Eu te amo e odeio amar.

Não quero te ver. Seu lugar é aí, do outro lado da rua. Não quero sonhar, nem acreditar. Te mandei embora porque a minha existência é pesada demais e eu não quero me resgatar. Porque eu sofro antes, durante e depois de te encontrar. Porque nosso passado é criminoso, nosso presente é medroso e o futuro me apavora.

Eu amo e não sei amar.

Um dia eu te fiz sorrir. Agora guardo esses nossos risos. Só.

Quer saber? Deixa pra lá... você sabe...

Érica Hissae Suzumura

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