Leo
antes que nada, te escrevo para esquecer, para arrancar isso de mim, assim que te peço que nao falemos mais (nunca mais...) sobre nada que se refira as palavras que estao por vir.
esses últimos dias foram de grandes descobertas, principalmente sobre mim mesma. quando se sofre muito, a sensaçao é de mergulhar no mais fundo da gente, tratando de entender e curar, mais que nada. faz alguns dias que venho descobrindo coisas incríveis sobre mim , estranho, parece que é um tipo de aprendizado que só pode vir da dor, mas nao qualquer dor, aquela que a gente nem sabia que era capaz de sentir porque nao é uma dor ordinária, tem que ter algo de nobre para senti-la.
aqui, nao há espaço para falar de emoçoes banais, sentidas por personagens comuns em suas vidas cotidianas. aqui, onde eu estou agora, é tudo potencializado e mágico e infinitamente triste... desde esse lugar, te conto a minha história, que claro está, nao poderia ser lida por olhos comuns e por isso escrevo a voce e a ninguem mais. de qualquer forma, me custa começar, talvez por que nem eu saiba bem onde tudo começou, em algum lugar entre sao paulo e buenos aires, entre sexo, política e fernet. me parece mais adequado, agora que eu penso bem, começar pelo final, porque o final geralmente explica tudo, quase tudo. enfim...
faz tres semanas, talvez um pouco mais, finalmente aceitei encontrar-me com ele. eu ja sabia que esse era o final, de uma maneira estranha. fazia meses que nao nos víamos e eu jamais pude esquecer. ele tampoco. pude ver ele parado na esquina, esperando. me viu, caminhou na minha direçao. eu sorri, ele nao. tudo bem, era ele e era a gente e tudo se sentia demasiado confortável como sempre. falamos de qualquer coisa enquanto procurávamos um bar. entramos no primeiro que tinha uma luz razoável. havia uma mesa, 15 homens juntos, outra, um casal, outra, duas senhoras. depois da primeira garrafa de vinho, éramos nós e os 15 homens, que eram grandes e músicos, e tinham violao e saxofone e cantaram e tocaram e era tudo pra nós dois. entao dançamos e sorrimos e tomamos vinho, o mundo inteiro e cada detalhe nele só existia porque a gente existia e o nosso amor era tao grande que as pessoas em volta podiam sentir e a gente, a gente podia fazer qualquer coisa. el mundo dejó de dar sus vueltas solamente para complacernos. y de pronto, todo tenia sentido, e nesse momento eu tive a certeza que ele era o amor da minha vida, que eu era o amor da vida dele e que jamais poderíamos ficar juntos. eu soube tudo isso nessa noite, quando o tempo parou, e eu sorri para cada segundo dessa felicidade quase mentirosa porque eu ja sabia, nós já sabíamos. ali, naquela noite, nos casamos, para nunca mais volver a vernos. entao nos despedimos de nossos padrinhos, terminamos o vinho e dançamos pelas 15 quadras entre o bar e a minha casa. nao vou te dizer que fizemos amor, fizemos sexo, desesperadamente, pela ultima vez. e dormimos abraçados, como de costume, até que ele se foi e eu ainda tenho a expressao dos seus olhos e o gosto da sua boca quando nos despedimos. ele também sabia que jamais poderíamos estar juntos de novo e que a nossa noite perfeita, a noite do nosso casamento, foi um último presente da vida para a nossa história, nao mais que isso.
e agora eu to aqui, tratando de esquecer. nao posso escutar chico buarque. nao pensei que poderia amar tanto. te conto essa história para nao guarda-la para mim. nao quero guardar nada. e sei que vc me entende.
te amo, e to com muitas saudades.
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